acrescimento

ou a sabedoria do caracol

Arquivo de Junho, 2012

Nova(mente) economia

Tenho achado muito interessante o tema da (nova) economia como corolário do “R” de Relocalizar.

A este propósito, deixo mais um artigo (desta feita, um pouco mais pequenito) com a divulgação de um projeto dentro do projeto do movimento de transição “Transition Network” – o REconomy

Tirado d’aqui, tradução livre da minha autoria:

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“A instabilidade económica atual tem avanços e recuos desgastantes: o que aparenta ser uma recuperação económica em determinado momento revela-se, pouco tempo depois, uma situação que nos dá ainda menos segurança. Cada vez que isso acontece, mais pessoas se apercebem que a resiliência, estabilidade e qualidade de vida deve ser o nosso objetivo primário, em detrimento de se perseguir o crescimento pelo crescimento. (Na verdade, cada vez mais nos questionamos se o crescimento é ainda possível numa base contínua.)

Este foi o pensamento por trás do argumento que serve para afirmar que um negócio resiliente é mais importante do que um negócio “verde”, e é o tipo de pensamento que leva comunidades outrora à deriva a reinventar-se como polos de uma nova economia local.

Agora há um novo projeto que surge do Movimento de Transição: denominado REconomy, este projeto visa ajudar as comunidades locais a criar uma visão e um plano para uma economia local verdadeiramente resiliente, por um lado de modo a permitir trabalhar com as empresas e as organizações existentes, auxiliando-os na preparação para uma economia mais sustentável, e por outro lado para ajudar a iniciar novos empreendimentos sociais, projetados especificamente para este novo paradigma.

O site do Projeto REconomy apresenta guias sobre um leque completo de temas, desde como criar fundos de empréstimo comunitários a empresas de serviços de energia renováveis, bem como estudos de caso sobre aqueles que já estão no terreno a aplicar estes conhecimentos e vídeos sobre todos os aspetos de uma economia local, sustentável.

Talvez da próxima vez que a economia global dê uma guinada para pior, todos nós possamos estar preparados para isso.”

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O artigo vem acompanhado de um vídeo sobre a iniciativa:

What is the REconomy Project? from Shane Hughes on Vimeo.

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A economia do futuro?

Um artigo algo extenso mas bem sistematizado sobre os diferentes tipos de economia existentes (a formal, com o emprego à cabeça, e a informal – doméstica, de subsistência, de trocas diretas, voluntariado…); uma abordagem do que o futuro nos pode reservar, à semelhança de um passado mais recente do que nos apercebemos, e de como teimamos em nos esquecer da eterna interligação entre todos aqueles tipos de economia.

Mais uma tradução livre da minha autoria (substancialmente reduzida, embora não pareça…).

Para ler o artigo completo, em inglês, ver aqui:

Imagining the Post-Industrial Economy, Sharon Astyk

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“Aqui está a única grande questão a considerar sobre o desenrolar económico, energético e ambiental que enfrentamos – como vai a economia evoluir? As pessoas perguntam mais sobre isso do que sobre qualquer outra coisa – o que se deve fazer com o emprego, o que se deve fazer com a poupança, como nos devemos começar a preparar para um mundo com gastos de  energia mais baixos. O que eu acho, no entanto, é que, quer entre os informados, quer entre os  desinformados, há muita gente equivocada. Há aqueles que imaginam que não há economia fora do mundo do mercado de ações e de empregos formais – que uma rotura em alguma destas coisas é o fim do mundo, o que significa que não pode acontecer ou então que o melhor é arranjar um bunker, armas e munições. Outros imaginam-se “livres” de todas as estruturas económicas maiores que o seu bairro ou a sua comunidade, satisfazendo alegremente a maioria das suas necessidades através das trocas diretas, sem nunca mais tocar em dinheiro. Ambas as ideias caem no reino da fantasia.

Lembremo-nos que a economia informal é, na verdade, a maior parte do total da economia mundial. Quando se adiciona a economia doméstica das famílias do mundo, a economia de subsistência, a economia de trocas diretas, a economia do voluntariado, a economia dita paralela (de “debaixo da mesa”), a economia criminosa e alguns outros contributos menores, chega-se a cerca de 3/4 do total da atividade económica do mundo. A economia formal – o território do trabalho profissional e remunerado, de declarações de impostos e PIB – é apenas 1/4 do total da atividade económica mundial.

Segundo nos diz Teodor Shanin e outros que trabalham no campo da economia rural, quando a economia formal falha, as pessoas de todo o mundo mudam para a economia informal. Por isso se explica que, na antiga União Soviética, embora os modelos económicos convencionais mostrassem que as pessoas “deveriam” estar a morrer à fome, isso não se verificava. Isto prova como as pessoas sem qualquer tipo de rendimento oficial ainda conseguem comer – embora muitas vezes não muito bem.

A influência da economia informal na atividade económica dos EUA é, em termos percentuais, a menor no mundo, mas, em termos absolutos, a economia informal norte-americana é uma das maiores do mundo. Mesmo aqui, como todos sabemos, não é de todo incomum as pessoas mudarem para a economia informal, quando expulsas do setor formal – fazendo permuta direta com os vizinhos, tendo um “trabalho paralelo”, ou voltando-se para a economia doméstica e familiar, caso outra pessoa possa disponibilizar os meios financeiros.

É lógico, então, que para muitos de nós, lançados para fora da economia formal, ou para aqueles que não conseguem fazer face às despesas na economia formal, fortalecer a economia informal é essencial. Vemos isso em todo o mundo, bem como no nosso próprio país, atual e historicamente. Quando os tempos estão difíceis, os jardins florescem, surgem empresas marginais, os mercados negros e a troca direta obtêm uma nova vida e as pessoas comercializam fora das suas empresas de forma intermitente.

Temos a tendência, no entanto, de ter uma visão simplista da economia informal – simplificada em vários sentidos. Em alguns casos, nem sequer sabemos que existe – por exemplo, a mistificação do conceito de “dona de casa” (“housewifization”) como meio de subsistência e trabalho doméstico significa essencialmente que ignoramos e não consideramos os méritos desta atividade. Em outros casos, subestimamos a sua capacidade de suporte – supomos que ninguém pode conviver de biscates ou de “trabalho paralelo”. Em outros casos, depreciamos a sua utilidade sem realmente a entender.

Isto é, em parte, devido ao facto que as histórias de economia que contamos são demasiado simplistas – considere-se, por exemplo, a narrativa que nos é oferecida acerca das trocas diretas num texto básico sobre economia. A alegação é que este sistema é pesado, difícil de manter, e foi entusiasticamente abandonado assim que se descobriu o dinheiro. Mas isto não é verdade – as trocas diretas tiveram um papel na maioria das economias durante a maior parte da história, e complexos sistemas de permuta têm sido utilizados com sucesso, com avaliações objetivas de bens e serviços e sofisticados meios de troca bem sucedidos.

(…)

Porque as avaliações em trocas diretas são imprecisas, ambas as partes têm um forte desejo de não parecer estar a prejudicar-se uma à outra. De algum modo, as economias de permuta tendem a enfatizar não o preço mais baixo possível, mas um superior, um pouco como naquelas culturas em que os preços são fixados artificialmente em baixa e quem regateia, regateia para cima em vez de para baixo. Este tipo de economia também pode ser uma maneira útil de nos livrarmos do que é obsoleto, substituindo-o por aquilo que nos é útil, ou seja, “Eu tenho roupa do bébé, você tem ervilhas frescas, eu livro-me do que já não preciso e arranjo comida para as crianças que entretanto cresceram… “. O dinheiro tem a irritante característica de ser algo que geralmente nenhum de nós se sente desesperado para se livrar.

Ao mesmo tempo, o que se vê nas economias de troca direta é que todos são capazes de chegar a expectativas e avaliações de coisas de um modo muito claro – isto é, sabe-se que um chapéu é valioso em comparação com ovos ou serviços de costura, do mesmo modo que eu posso encontrar um preço justo em dinheiro para um cordeiro ou plantas de jardim. Os cálculos subjacentes são os basicamente os mesmos – requerem um conhecimento de mercado e uma participação na economia como um todo.

A troca direta não é a única atividade económica em geral subavaliada por análises convencionais que enfatizam apenas a atividade economia formal. O mesmo se pode afirmar para a atividade de subsistência – muitas vezes se ouve dizer “Para quê arranjar uma horta? A comida não é assim tão cara.” E, quando vistas isoladamente, há coisas que parecem muito baratas – a conta da luz ou uma conta de mercearia são consideradas de muito fácil gestão, nestes termos. Manifestamente, no entanto, quando os tempos económicos se tornam difíceis, a falta de alimentos ou o corte da eletricidade demonstram que não é o tamanho da despesa, mas o montante de créditos financeiros relativamente à renda de uma pessoa que realmente importam.

(…)

Quando subestimamos ou simplificamos demais a economia informal, não prestamos a nós mesmos um bom serviço, porque perdemos a capacidade de ver a importância fulcral que tem para o nosso futuro. Isto acontece igualmente quando imaginamos que o nosso futuro existe inteiramente dentro da economia informal. As economias formais e informais são entrelaçadas por todo o lado no mundo – o dinheiro proveniente do tráfico de droga entra em economias locais, o dinheiro ganho em Wall Street paga o ordenado de imigrantes ilegais que cuidam das crianças dos corretores da bolsa. O dinheiro recebido “por debaixo da mesa” em concertos fora dos circuitos comerciais ou por taxistas é usado para comprar alimentos e pagar as contas do gás. Os vegetais provenientes de hortas urbanas servem de alimento a pessoas que trabalham em empregos da economia formal. A economia gerada pelo voluntariado torna algumas instituições de economia formal viáveis, como, por exemplo, museus. Equipamentos de roubados ou considerados ilegais são usados na construção civil. Há trabalho de edição e revisão de textos feito para escritores profissionais pelos seus cônjuges. Em todos os aspetos, as duas economias cruzam-se e tornam-se numa só.

Eu suspeito que quanto mais subestimamos a economia informal, a sua dimensão e importância, mais subestimamos a persistência da economia formal. Conheço algumas pessoas que antecipam um eventual retorno totalmente para uma economia de subsistência, de troca direta e doméstica – mas isso não é um resultado provável a curto prazo. A visão de um mundo em que não é preciso nenhum dinheiro, em que todas as dívidas vão desaparecer, em que ninguém vai investir ou preocupar-se com a poupança para a reforma é muito improvável – mesmo que algumas dívidas sejam eliminadas, ou mesmo algumas economias para a reforma.

Sabemos, por exemplo, que as sociedades pré-industriais e anteriores aos combustíveis fósseis tinham muito frequentemente complexos sistemas económicos formais. Enquanto algumas pessoas possam ter tido muito pouca participação nestes sistemas, eles sempre existiram. O sistema económico formal do feudalismo, por exemplo, que exigia o pagamento cuidadosamente calculado no trabalho, em vez de dinheiro, foi em grande parte inevitável para a maioria das pessoas da época. A leitura de um diário de uma mulher judia de classe média na Alemanha do século XVIII envolve longas descrições de cartas de crédito, transações bancárias e acordos de pagamento de dívidas. A compreensão das complexidades jurídicas e económicas de uma aldeia rural na Alemanha do século XVII exigiria um extenso estudo, e envolve muitos conceitos familiares de economia formal, como limites de hipotecas, advogados e estudos.

(…)

O que sabemos das eras anteriores à descoberta dos combustíveis fósseis é que a economia informal, quando fortalecida, pode reforçar a maior economia como um todo – permitindo que a economia formal dê apoio às pessoas mais nas coisas que realmente necessitam das suas ferramentas, como sejam as trocas monetárias. (…) Sabemos que, antes da industrialização, uma mistura complexa de atividades económicas apoiou a maioria das pessoas – que poucas pessoas subsistiam apenas de um tipo de trabalho ou indústria.

Assim, podemos começar a imaginar a economia pós-industrial como uma espécie de híbrido – assim como nossa economia industrial é híbrida, mas com ênfases diferentes. Não será constituída inteiramente de uma troca de ovos e vegetais, nem será constituída inteiramente de pessoas cuja única atividade económica existe no reino de um único trabalho para o qual são treinadas e do qual são totalmente dependentes. Em vez disso, ela pode envolver uma mistura complexa de emprego que permita cumprir as obrigações da economia formal, de trabalho de subsistência para disponibilização de coisas inacessíveis na nova economia, trabalho doméstico para reduzir as despesas e permitir a existência de bens em excesso para venda, troca direta com os vizinhos para a satisfação de uma complexa mistura de necessidades ainda não conhecida, e talvez incursões em trabalhos pagos em dinheiro em áreas não reconhecidas pela sociedade como legítimas.

Os mercados de capitais e as dívidas vão continuar a existir (o que não significa que algumas dívidas e alguns mercados não possam ser reduzidos ou eliminados). Os seres humanos ainda têm o hábito de fazer das suas transações económicas algo complexo. Mas também continuarão a tentar simplificá-las, de modo a obter o que precisam diretamente, sem envolver o fisco ou intermediários. A economia pode, ocasional ou frequentemente, cair no caos, sem linhas claras de demarcação entre as obrigações que devem ser respeitadas e aquelas que podem livremente ser ignoradas – mas entre esses períodos, o hábito humano de organização económica vai continuar, e exigirá um investimento para a maioria de nós em ambas as economias, formal e informal.

Ter algum tipo de imagem realista de uma economia emergente numa curva descendente da disponibilidade de energia, à beira de uma crise, é realmente importante. Temos o mau hábito de imaginar que grande parte da economia se manterá para além da nossa existência, de modo a atender às nossas próprias necessidades – mas estamos melhor informados se tivermos uma imagem tão clara quanto possível da realidade.”