acrescimento

ou a sabedoria do caracol

Arquivo de Setembro, 2013

Salvem o comércio local

LocalMarkets

(Feira da Malveira, Mafra, à 5ª feira)

“Local Works” pode-se traduzir por “Trabalhos locais”. Mas, para o caso, até acho melhor “O local resulta”.

“Local Works” é o nome de um site que, na sua página “About us”, refere tratar-se de «uma coligação de mais de 100 organizações nacionais com o objetivo de promover a utilização da radical e sensacional “Sustainable Communities Act”».

A “Sustainable Communities Act” é deveras radical e sensacional como documento, mas ainda mais pelo que este documento representa: é uma lei aprovada pelo parlamento inglês e equivalente à “Lei” portuguesa que possibilita aos cidadãos enviarem propostas ao governo sobre como este poderá ajudar a comunidade local a resolver um determinado problema*.

E de onde veio este meu interesse por sobre esta temática aparentemente tão longe do comum cidadão? Porque aquele site lançou há tempos uma notícia sobre as grandes superfícies. Essa praga dos nossos tempos (que me desculpem os amantes dos cartões, pontos e descontos).

Senão, vejamos o que eu li nesse artigo:

“ Por toda a Grã-Bretanha, a rua está em declínio. Os efeitos propagam-se através das nossas comunidades. Um fator importante para essa queda é o aumento incessante de grandes supermercados (…)”:

  • Os supermercados levam ao encerramento das lojas locais e retiram dinheiro das economias locais. (Acho que não preciso de desenvolver: quem não assiste hoje em dia à morte do comércio local?).
  • A existência de supermercados provoca uma diminuição de empregos nas comunidades locais. (Não vou desenvolver, por arrasto do que disse no item anterior).
  • Os supermercados prejudicam o ambiente (neste ponto deixo uma janela para um artigo a publicar em breve sobre o movimento “Fruta Feia”, que combate o desperdício alimentar).
  • Os supermercados prejudicam-nos (em inglês, soa mais agressivo – “rip you off” – que quer dizer, à letra, “dilaceram-nos” ou mesmo “roubam-nos”. Mas ainda não tenho coragem de escrever isto desta maneira).

E estes senhores estão a lançar uma campanha para obter autorização para aplicar uma taxa local ao comércio efetuado nas grandes superfícies.

Eu, por mim, cada vez compro mais local. Sinto-me melhor comigo própria.

* Em nota de rodapé, a mesma página “About us” refere que a “Sustainable Communities Act” se aplica apenas em Inglaterra… Pois. Em Portugal, segundo me informaram, o mais semelhante a isto é a Lei nº 17/2003 de 4 de junho, que veio regulamentar o direito de iniciativa legislativa previsto no artigo 167.º da Constituição e que permite que grupos de cidadãos eleitores possam apresentar projetos de lei e participar no procedimento legislativo a que derem origem. Estes projetos de lei devem ser subscritos por um mínimo de 35.000 cidadãos eleitores…” E, a nível local, as comissões de moradores podem fazer petições às autarquias (sobre assuntos administrativos que lhes digam respeito direito) e participar nas assembleias de freguesia, sem ter contudo direito a voto.

Os meus sinceros agradecimentos ao Alexandre Rodrigues (um português em “terras de sua majestade” 🙂 ) e ao Luís de Portalegre em Transição e à Isabel de Cascais em Transição pela inestimável ajuda a perceber alguns meandros relativos à legislação em Inglaterra e em Portugal, respetivamente.

O desperdício de alimentos prejudica o clima, a água, a terra e a biodiversidade.

WasteFood

O título deste artigo é o mesmo de uma notícia na página da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) que reporta ao relatório “Food Wastage Footprint: Impacts on Natural Resources”.

Vamos a números? 1.3 milhões de toneladas de comida desperdiçadas por ano, o que implica um gasto a mais de um volume de água equivalente ao fluxo anual do Rio Volga (Russia) e à libertação de 3,3 milhóes de toneladas de gases de estufa para a atmosfera (mais do que isto só os EUA e a China, como países, conseguem superar…)

E um impacto na economia com um custo direto de 750 mil milhões de dólares (cerca de 536 mil milhões de euros).

“Don’t bite more than you can chew” (Não mordas mais do que consegues mastigar) é o nome de um programa lançado na Bélgica em 2008 em que foi emitido um guia para professores com alunos de 8 a 10 anos de idade com ideias para prevenir o desperdício alimentar.

Este programa é apenas um dos exemplos que consta do Tool Kit da FAO (Box 28, pág. 41), um guia com recomendações sobre como o desperdício e resíduos podem ser reduzidos em todas as fases da cadeia alimentar.

Este “Tool Kit” contém ainda a menção a uma série de projetos de todos os cantos do mundo que mostram como governos nacionais e locais, agricultores, empresas e consumidores podem tomar medidas para resolver o problema.

Portugal aparece no final deste documento com uma iniciativa intitulada “Menu Dose Certa”, que remonta a 2008, da iniciativa da Câmara Municipal do Porto e vários “stakeholders”, e que visava a redução do desperdício alimentar em restaurantes.

Mas é preciso muito mais…

O artigo fala genericamente em causas a montante (54% do desperdício durante a produção, a manipulação e o armazenamento pós-colheita) e a jusante (46% nas fases de processamento, distribuição e consumo). E, como seria de esperar, quanto mais tarde na cadeia alimentar um produto alimentar se desperdiça, maior é o impacto que tem a nívle dos recursos naturais.

Sublinho ainda as três grandes orientações que a FAO indica para ajudar a resolver este problema (por ordem de prioridades):

Reduzir o desperdício;

2º Reutilizar dentro da cadeia de alimentação humana;

3º Reciclar e recuperar (através da compostagem, por exemplo).

(Onde é que eu já vi estes “R”s?)

Este artigo fala ainda de uma parceria entre o Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) e a FAO na criação de uma campanha intitulada “Think-Eat-Save: reduce your foodprint”, que tem uma página bastante interessante aqui.

Como nota final, refiro a surpresa que se tem na incrível redução do volume de “lixo doméstico” quando se separa o “lixo orgânico” para compostagem. Pelo menos eu tive quando o comecei a fazer – o tamanho do saco do lixo reduziu para menos de 1/4 :)!