acrescimento

ou a sabedoria do caracol

Arquivo de Março, 2014

Mais palha?

AduboVerde&Faveiras

Há pouco tempo vi uma ligação na internet que disponibilizava dez documentários sobre a alimentação.

Uns mais “pesados” que outros, mas genericamente densos. Deixo a tarefa de divulgação destes documentos audiovisuais para outras esferas. Mas ficou-me uma frase que sintetiza a ideia que tiro da problemática da alimentação dos dias de hoje, na nossa sociedade: pessoas super-alimentadas mas subnutridas. Isto é, calorias a mais para falta (por vezes grave) de nutrientes essenciais.

E aqui entram algumas citações do livrinho que revelei no meu último artigo, de Masanobu Fukuoka (A revolução de uma palha):

“Se viermos a defrontar-nos com uma crise alimentar, ela não será devida à insuficiência do poder produtivo da Natureza, mas sim à extravagância do ser humano.”

“Há quarenta anos atrás, a palavra de ordem era cultivar trigo, cultivar um cereal estrangeiro, uma colheita inútil e impossível. Depois vieram dizer que o valor nutritivo das variedades de centeio e de cevada japoneses não era tão elevado como o dos cereais americanos, e relutantemente os camponeses abandonaram o cultivo destes cereais tradicionais. Com o nível de vida a aumentar de forma constante, a palavra de ordem foi “comer carne, comer ovos, beber leite e passar do arroz ao pão”. Milho, soja e trigo foram importados em quantidades cada vez maiores. Como o trigo americano era barato, o cultivo do centeio e da cevada indígenas foi abandonado. A agricultura japonesa adoptou medidas que forçaram os camponeses a arranjar trabalho a tempo parcial na cidade, para poderem comprar as colheitas que lhes tinham ordenado que não cultivassem.
E agora surgiu uma nova preocupação com a falta de recursos alimentares. Volta a falar-se de auto-suficiência para a produção do centeio e da cevada. Diz-se mesmo que haverá subsídios (…)”

“(…) as pessoas que se limitam a fazer uma alimentação simples e baseada em produtos locais não precisam de trabalhar tanto e utilizam menos terra do que as que têm um apetite de luxo”.

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“Quem é estúpido?”

FukuokaSan_Capa“Partindo do princípio de que curar a terra e purificar o espírito humano são a mesma coisa, A Revolução de Uma Palha tem por objectivo mudar as nossas atitudes para com a Natureza, a agricultura, a alimentação e a saúde física e espiritual”.

Esta é a conclusão que aparece na contracapa do livro que, ao mesmo tempo, resume a obra escrita em 1975 por Masanobu Fukuoka, nascido no Japão em 1913 e considerado hoje em dia “um dos pioneiros da agricultura sustentável”.

Não é um livro fácil. Desde logo, pelo modo como é escrito – nas “Notas de Tradução”, está referido o desafio que constituiu a edição desta obra no ocidente, não só pelas subtilezas da língua japonesa, mas também, e talvez principalmente, pelas dificuldades em expressar toda a experiência pessoal e o percurso interior que o autor pretende transmitir, sem atropelar as subtilezas do contexto cultural próprio da obra original.

Centra-se no tema da agricultura mas, intencionalmente, espraia-se por diversos outros assuntos de um modo aparentemente desorganizado e pouco habitual para o comum dos leitores no ocidente (ver índice aqui).

“Se não fizéssemos absolutamente nada, o mundo não poderia continuar a girar. O que seria do mundo sem desenvolvimento?”
“Que necessidade existe em desenvolver? Se o crescimento económico subir de 5% para 10%, a felicidade duplica? Que mal há numa taxa de crescimento de 0%? Não é um tipo de economia assaz estável? Poderá haver algo melhor do que viver simplesmente e sem complicações?” *

Este revelou-se um livro surpreendente e desafiante, cuja descoberta não termina na primeira leitura. Por isto regressarei a ele.

* – Citação do subcapítulo que dá nome a este artigo – “Quem é estúpido?”, pág. 152.

FukuokaSan_Traducao

Mais uma acha…

Artigo_UN

  • Aumento do teor de carbono no solo e melhor integração entre produção agrícola e pecuária
  • Aumento da incorporação de sistemas agroflorestais e vegetação selvagem
  • Redução das emissões de gases de efeito estufa resultante da produção animal
  • Redução de gases de efeito estufa por meio da gestão de turfeiras, florestas e pastagens sustentável
  • Otimização do uso de fertilizantes orgânicos e inorgânicos, nomeadamente através de ciclos fechados de nutrientes
  • Redução de desperdício nas cadeias alimentares
  • Mudança dos padrões alimentares em direção a um consumo amigo do ambiente
  • Reforma do regime de comércio internacional para a alimentação e para a agricultura

Estes são alguns dos elementos-chave que constam de um relatório das Nações Unidas que refere a agricultura biológica de pequena escala como o único caminho para alimentar o mundo.

Artigo completo na página “overgrow the system“.

A comentários céticos, do tipo “as pessoas não querem saber destes assuntos, elas simplesmente não querem mudar”, há respostas que me encorajam a continuar com esta divulgação: há uns tempos atrás, quase ninguém falava destes assuntos…